Blog

Novidades sobre o meu trabalho.

Eu vivo pelos dias improváveis

 

Um texto sobre os encontros e as pessoas que nos modificam ao longo da nossa jornada, sem sequer nos darmos conta disso.

30 de junho, 2019

O plano do domingo era trabalhar em um projeto de manhã e a tarde receber uns amigos para almoçar. Tudo ia como o planejado. Trabalhei e parei antes do meio dia. Fui ao mercado e depois comecei a cozinhar.

Um dia antes, minha mãe havia me ligado. Meu irmão de 7 anos queria falar comigo. Os 10 anos morando em São Paulo me colocaram distante da minha família. O tempo somado as diferentes perspectivas sobre a vida, acabam criando um estranhamento, mas isso é assunto para outro texto.

O almoço com os amigos foi ótimo. É importante receber pessoas em casa. Ter oportunidade se reunir ao entorno da comida, conversar e aproveitar a presença do outro. Eu fiquei avoado depois do almoço. Aquela ligação tinha colocado um humor diferente no meu dia. A Mai sempre questiona sobre minhas escolhas em relação a família. Ela coloca sua sensibilidade para falar acima do racional. Certamente foi isso que fez eu encontrar amor nela. Família é importante pra mim, mas eu refletir sobre isso é onde mais pega.

Bem, eu decidi pegar essa minha reflexão, a Suri e chamei a Mai para ir passear. Era fim de tarde e fomos numa praça perto de casa. Chegamos e tinha uma senhora com sua fox paulistinha — sentada, fumando o seu cigarro e mexendo no celular. Eu precisava de espaço e silêncio. Me afastei e fui subir em uma árvore enquanto brincava de jogar pedaços de troncos pra Suri. A Mai se aproximou e começou a conversar com a senhora. Ela entendeu o espaço que eu precisava, mas ainda estava ali. Fiquei um tempo na árvore. Observando e sentindo o vento balançar as folhas. Alinhando a minha pressa ansiosa com a calma da natureza. Estava mais preocupado com o medo de cair da árvore do que olhar para as questões da minha família.

A conversa da Mai com a senhora se prolongou. Pouco tempo depois, elas estavam vendo fotos no celular e falando sobre plantas. O dia já estava quase indo embora. Desci da árvore e então resolvemos voltar pra casa. A conversa continuou e descobrimos que a senhora morava na mesma rua que a nossa. Seguimos na mesma direção. Foi tempo o suficiente para ela contar que estava com dificuldades pra tirar seu carro da garagem. 

“A rampa do prédio é muito íngrime e nos últimos dois dias eu nem saí de casa. Queria fazer compras e ir ver umas amigas.” ela disse.

A Mai — colocando sua gentileza a frente —  ofereceu ajuda para tirar o carro. Já eu estava racionalizando de novo: qual a probabilidade de alguém em São Paulo aceitar ajuda para tirar um carro da garagem, tendo conhecido duas pessoas estranhas há menos de 2 horas? Ou ainda, de alguém se dispor e de fato ajudar sem desconfiar e esperar algo em troca? 

Pois bem, ela aceitou a ajuda. Seguimos conversando até seu apartamento. O porteiro não permitiu a entrada da Suri pelo portão principal. Fomos pela garagem e a senhora não queria que fôssemos sozinhos. A rampa muito inclinada tornou a caminhada difícil até o elevador — para nós e para senhora. Fez sentido a dificuldade dela não conseguir tirar seu carro da garagem.

Chegamos em seu apto. Ela se desculpou pela bagunça e então nos levou até sua sala. A mesa estava repleta de caixas com fotos. Tinha um convite de uma exposição antiga com uma foto da Danusa Leão no Palácio do Catete em nome de Bia Parreiras. Ela nos disse para sentar e perguntou se queríamos um café. A partir daquele momento começou a dividir sua história. 

Ela contou que havia perdido a visão de um olho e que a retina do outro havia começado a escurecer. Isso estava deixando ela aflita nos últimos dias. Nesse momento, eu parei por alguns instantes. Me distanciei do presente de novo. Só conseguia ouvir uma voz de fundo. Comecei a fazer relação com as fotografias em cima da mesa e me perguntar se eram dela. 

O nome da senhora é Bia Parreiras, 70 anos. Fotógrafa desde 1968. A Bia foi editora de fotografia do Última Hora, Veja, Exame, Vip, Quatro Rodas, Viagem e Turismo e Guias Quatro Rodas.

Bia nos permitiu conhecer sua história pelas suas próprias palavras. Estava dividindo algo tão pessoal com duas pessoas não tão mais estranhas assim. Fiquei contente e aliviado que nós fomos esse encontro improvável. Sua paixão num instante se conectou com a minha. Estava agradecendo em pensamento a Mai por ter iniciado essa conversa. Especialmente quando conversar era a última coisa que eu queria. Esses encontros improváveis diminuem as nossas questões. Eles nos fazem olhar para os outros com sensibilidade, cuidado e empatia.

Bia — 70 anos, sem a visão de um olho e perdendo a visão do outro. Um acervo enorme e todas as suas memórias para organizar. A conversa estava tão boa que nos esquecemos do carro. Ficamos conversando e a Mai já estava novamente oferecendo ajuda para organizar seu acervo pessoal de fotografias. Nos comprometemos ajudá-la a tirar o seu carro da garagem sempre que precisar e também acompanhá-la nas compras e a passeios quando necessário. Trocamos Whatsapp e Instagram. Bia é nossa nova amiga, vizinha e pessoa que inspira muita gente no mundo da arte.

A felicidade transborda por esse encontro improvável. Agradeci ao mundo por insistir em dizer para não esquecermos o que nos torna humanos: a nossa capacidade de pensamento e conexão com o próximo. Por nos lembrar o quanto somos egoístas sobre sentimentos a ponto de ignorar a existência do outro, assim como eu fiz ao chegar na praça. E de que preciso olhar com toda essa sensibilidade, cuidado e empatia para minha família também.

6 de julho, 2019
Uma semana depois, Bia mandou mensagem no Whatsapp. Convidou para um passeio no Parque das Corujas e depois ir fazer mercado com ela. Registrei algumas memórias desse dia para guardar sua existência com carinho. 

 
Bia e Candy em frente a horta da Praça das Corujas — SP

Bia e Candy em frente a horta da Praça das Corujas — SP

Bia sentada com Candy na Praça da Corujas — SP

Bia sentada com Candy na Praça da Corujas — SP

Bia, Candy e Mai sentadas e conversando na Praça das Corujas — SP

Bia, Candy e Mai sentadas e conversando na Praça das Corujas — SP

 

Obrigado pelo seu tempo, Bia. Pelas suas histórias. Por essa conexão. Por confiar em dois estranhos com todo seu coração. Você com certeza modificou a nossa jornada, para sempre.

 
Dan Magatti